Esses dias no ônibus ouvi que somos nós que votamos e os políticos que recebem. Não deixa de ser verdade, mas creio ser um pouco de hipocrisia da parte da sociedade de encarar a classe política com tal descrença, afinal somos nós que elegemos, somos nós que pedimos dinheiro para contas de luz, nos vendemos por cesta básica e assim por diante.
Eu sinto muito em chegar à conclusão de que a cada dia mais as pessoas estão mais hipócritas. Ouvi pessoas dizendo que faz muito mais que o patrão, fisicamente e cronologicamente, e recebe menos, mas essa mesma pessoa acredita que professores devem se aposentar mais cedo, ou seja, defende privilégios.
Foi construído um estereótipo da direita e da esquerda que impossibilitam o debate a sério das posições políticas. O senso comum, por vezes com diplomas da universidade, acredita em uma direita carrasco de direitos trabalhista e uma esquerda democrática e livre; coloca como direita todos que vão contra as suas posições. Essas simplificações empobrecem o debate que é tão caro à democracia.
Enquanto a esquerda demoniza a direita e a coloca como a maldade personificada, colocando o patrão em extremo oposto ao empregado, considerando o proletário como vítima de uma teia social e o capitalista como o mentor de todas as crueldades que há no mundo; e a direita coloca a esquerda como ditatorial e corrupta, fazendo questão de ressaltar as atrocidades ocorridas em países de regime socialista ou comunista, permaneceremos numa superficialidade epidérmica.
A cada dia que passa se torna mais complicado tomar posição sobre determinadas situações na sociedade. Focault é um dos principais pensadores que evidencia essa violência feroz que os discursos exercem sobre os sujeitos dentro da sociedade. Há quem se admita de esquerda por dizer que não concorda com as ideias de direita, por acreditarem nesse discurso raso de que ser conservador ou liberal é ser desumano; por outro lado há quem se admita de direita rechaçando as crueldades que foram cometidas pelas ditaduras de esquerda.
Ambos os discursos infligem forte pressão sobre os sujeitos e nos vemos, dependendo da instituição a que pertencemos, sob coerção de aceitar um e rejeitar outro sem o mínimo de questionamento.
O Brasil só terá de fato uma democracia madura quando aprender a desconstruir essas amarras e cada indivíduo tomar firme posição sobre o que pensa. Só seremos maduros quando nossas discussões compreenderem que esquerda e direita não dão conta da complexidade política que vivenciamos no nosso cotidiano.
Texto Publicado em 25/09/2016 no na Coluna "Resenha de Domingo": http://www.culturaplural.com.br/violencia-esquerda-ou-direita#.WCoKhi0rLIU
Nenhum comentário:
Postar um comentário