A questão do paternalismo no
Brasil se estende durante séculos, desde a sua formação europeia. Se olharmos
para as primeiras descrições do Brasil vemos interesses voltados às riquezas
que a terra poderia dar, mas também vemos muitas delas, principalmente por
parte dos religiosos, com vistas a salvar os índios da sua ignorância e de seu
modo de vida bestial.
A concepção de que é
necessário alguém superior para ajudar quem está mais abaixo persiste com os
senhores de engenhos e o sistema implantado no Brasil com os agregados. Mesmo
sendo um país escravocrata, ainda via-se na mão do senhor um socorro, ou seja,
mesmo ele sendo dono e reificando outra pessoa, esta ainda via qualquer
“bondade” do senhor como um favor.
Os exemplos se seguem com a
Monarquia, com a República, com a Era Vargas e sua política populista, com o
autoritarismo do Governo Civil-Militar implantado em 64, e assim por diante.
Mas nesse pequeno texto, ainda quero lembrar posições paternalista por parte
daquela ala que deveria, como parte do seu discurso defende, lutar contra esse
tipo de ação.
A esquerda
marxista-leninista já dava mostras de seu paternalismo, ou projeto de poder
totalitário, quando dispensa a democracia por defender que os líderes
bolcheviques sabiam aquilo que era melhor para o povo. Vemos esse tipo de ação também nos CPCs da
UNE (Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes) instalados no
Brasil no meado do século passado. Essa organização que considerava a Cultura
Popular como esdrúxula, alienada e defendia uma Cultura Popular Revolucionária,
levando “politização” e “cultura de qualidade” ao proletariado.
A construção, tanto à
direita como à esquerda, da nossa sociedade e da nossa identidade demonstram
como fomos condicionados a uma situação de sempre esperar de cima as
providências que resolverão as nossas vidas. Não estou aqui criticando
programas assistenciais simplesmente, mesmo porque acho que os mesmo sejam
necessários para reparar séculos de discriminação e marginalização, mas a
postura que os brasileiros têm de ver no governo uma fonte de favores, nunca
obrigações por terem sido eleitos.
Esse tipo de pensamento e
postura ainda se vê mesmo nos meios universitários. Isto fica claro quando
interpretamos o Mito da Caverna como se nós, acadêmicos, conseguíssemos retirar
das trevas da ignorância as demais pessoas e como se nós fossemos intocáveis e
donos da verdade, desconsiderando o pensamento daqueles que, muita das vezes
não tem formação universitária, e pensam de maneira diversificada. Isso fica
límpido quando simplesmente achamos absurdo e julgamos inaceitável que pessoas
façam manifestações contrárias às ideias predominantes na academia e as
criticamos como se as mesmas fossem ignorantes e incapazes de ter consciência
histórica, apenas pelas mesmas não pensarem da mesma maneira que a elite
acadêmica pensa, sentimos isso dentro da própria academia, muitas vezes, na
relação professor-aluno.
O Brasil só conseguirá
estabelecer uma democracia saudável quando os brasileiros reconhecerem a
necessidade de dialogar e respeitar as opiniões contrárias, quando a população
parar de reclamar do governo quando dá enchente e mudar sua postura com o
descarte do lixo. O Brasil só alcançará a maior idade e a maturidade
democrática quando deixarmos de ser pedantes por um lado, preguiçosos por outro
e, acima de tudo, omissos e assumirmos os bônus e ônus de sermos sujeitos da
história.
Publicado em: 10/03/2016 no Jornal Diário dos Campos
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