O último texto que escrevi e
publiquei aqui foi na segunda semana de Janeiro e falava sobre a esperança de
um ano melhor, de mais fé nas instituições políticas, de mais força para lutar
e fazer um Brasil melhor. Meus textos sempre são de oposição ao governo federal
e continuo o sendo, mas este quero que a tônica seja um pouco diferente, mesmo
sem deixar a crítica de lado.
Um dos projetos aplicados
durante o governo do PT foram as cotas. Dentro de uma relação amor&ódio na
sociedade, é um tema que até hoje gera polêmica. As pessoas que são contra
defendem a meritocracia, ideia típica do liberalismo econômico expressa, por
exemplo, na frase “O Sol Nasce para todos”, deixando transparecer que todos têm
as mesmas oportunidades e “Querer é Poder”. Não resta dúvida de que devemos
correr atrás dos nossos sonhos e nos esforçarmos, entretanto será que tudo se
resume a isso?
As cotas são justificadas
pela chamada Dívida Histórica, mas seus opositores dizem que não devem nada.
Realmente não somos nós que devemos (diretamente), mas a sociedade em que somos
sujeitos deve, logo nos tornamos devedores também. A abolição da escravatura
veio como uma covardia contra a população liberta. Foi feita de cima para baixo
e pensando apenas a classe dominante. Foram trazidos europeus para trabalharem
aqui, renegando os negros à marginalização.
Sim, a sociedade brasileira
deve a inclusão no mercado de trabalho e na própria sociedade desses que sempre
foram excluídos e, sim, as cotas são necessárias. Entretanto é importante
destacar que elas não são a solução, deve-se investir em educação de base de
qualidade, as escolas públicas devem preparar de fato os alunos para a vida,
para a concorrência do mundo adulto também.
Alguns projetos existem para
preparar esses jovens para entrar no mercado de trabalho, vemos isso com os
mais variados projetos que o governo mantém como o tão falado PRONATEC, e outros
que permitem o ingresso na Universidade, como o ProUni e o Fies. Há novos
caminhos para que os antes excluídos possam ter acesso ao tão elitizado ensino
superior.
Mas é preciso mais! É
preciso que se dê base social e econômica para que esses jovens possam ter
condições de se manterem e que possam acompanhar o ritmo para que as
desistências não sejam frequentes, melhor, que não existam.
Presenciei nesse início do
ano muitas pessoas revoltadas com as cotas e outras, o que é muito pior, que
não tem “direito”, pois não são afrodescendentes, se utilizando desse meio
criado para integrar os que a sociedade um dia marginalizou para proveito
próprio. Isso muito me enoja, porque são anos de luta por mais igualdade e a
nossa sociedade cospe na cara da justiça e na luta por uma sociedade mais justa
e depois reclama da corrupção lá em cima.
Essa foi a minha primeira
decepção com o Brasil esse ano e foi com a sociedade e não com o governo. Para
um país melhor é preciso que sejamos melhores cidadãos, que cumpramos com a
moral e a ética. Precisamos extinguir a corrupção da sociedade para que
alcancemos a justiça e, consequentemente, um governo melhor e mais limpo.
Publicado no Jornal da Manhã - 26/01/2016
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