sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

ONTEM POPULAR, HOJE CENTRALISTA?


Se olharmos para a história recente do Brasil veremos tantos nomes, há época jovens, hoje senhores e senhoras que estão ativos na nossa política. Mas gostaria de chamar atenção às declarações quanto à democracia que pudemos acompanhar na semana passada.
Integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB) falaram que as manifestações no congresso atacaram a democracia. O que nos é estranho é que cidadãos e políticos profissionais como Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e Lindberg Farias (PT-RJ), que sempre apoiaram esse tipo de manifestação, agora estão dizendo exatamente o que tanto combatiam. Como explicar essa mudança de opinião? A Democracia mudou? É complicado de compreender o que realmente está por trás dessa mudança de ideias, mas é essencial que essa reflexão seja feita.
Dentro da história do Brasil PT e PCdoB estiveram juntos por muitos anos e com a redemocratização pós-ditadura esse vínculo estreitou-se. Ambos os partidos são marcados pelas lutas sociais e a constante busca, pelo menos no discurso, pela maior participação das camadas populares da sociedade nas decisões políticas do Estado. O PCdoB organizou a maior guerrilha rural durante a época da ditadura civil-militar no Brasil, a Guerrilha do Araguaia. Lula foi o principal sindicalista que, perto do fim do período ditatorial, opôs-se as políticas econômicas marcadas pelas decisões tomadas de cima para baixo e foi em cima da figura dele que o Partido dos Trabalhadores foi criado.
A defesa de movimentos sociais organizados e a luta dos ideais democráticos, a inconformidade com as decisões marcadamente hierárquicas e tantos outros conceitos que sempre foram estandartes, das instituições aqui tratadas, mostram-se hoje justamente o antagonismo que defendem. O poder tende a corromper. É isso que tem acontecido com os antigos partidos marxistas ou apenas temos visto sua real faceta além da máscara? É praticamente impossível responder a tal questionamento.
PT sempre se demonstrou marxista, PCdoB rompeu com os mesmos, mas permaneceu com resquícios de suas raízes. Se pensarmos por esse viés poderemos perceber que quando a presidente Dilma, durante a campanha eleitoral, afirmou que a sua palavra bastava, fala claramente com traços ditatoriais, segue os seus líderes históricos, Marx e Lênin, ambos tendentes à centralização do poder, podendo ver na Internacional Comunista e na Rússia Comunista, respectivamente, a prova dessa afirmação. Logo, quando nos deparamos com posições, como a dos parlamentares supracitados, não devemos ficar boquiabertos, pois é da natureza dessa esquerda autoritária atitudes centralizadoras e antidemocráticas e isso desde as suas raízes no século XIX lá na Europa.
Essa compra de votos através do decreto 8.367/2014 mostra tamanha inclinação a falta de diálogo que há no atual governo e na sua incapacidade de escutar setores da sociedade, tendo diálogo efetivo somente com aqueles que consentem na mesma opinião. Talvez, o pilar essencial da democracia seja a liberdade de expressão e a oportunidade de diálogo aberto entre o Estado e facções organizadas da nação, mas esses não têm sido respeitados. Rousseau defenderá no livro Do Contrato Social que a organização democrática não funciona dentro de Estados luxuosos e grandes em extensão territorial, ou seja, a democracia nacional, segundo o filósofo Rousseau, está fadada ao fracasso, uma vez que a luxúria vai gerar a corrupção e a luta descompromissada com a sociedade pelo poder, que, afinal, é o que temos visto atualmente, e a grande extensão territorial que causaria desmando e impossibilitaria o atendimento por igual de todos os cidadãos.
Política é necessário, mas o que há hoje no Brasil é luta pelo poder, simplesmente pelo poder. Se considerarmos o Estado como mal necessário deveríamos fazer com que o mesmo nos sirva e não o inverso, se somos democráticos que façamos a voz da população sobressair a tentativa dos Poderes de abafá-la.


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