quarta-feira, 30 de março de 2016

Que seja já, que seja agora!


O Brasil vive um período de grande incerteza e descontentamento para todos os lados. A presidência da República a cada dia mais perde a possibilidade de governar e tirar o Estado da lama que está. Vimos uma presidente largar o país para se por ao lado de um investigado.
Me dirão que ela está defendendo o país assim, está lutando pela democracia. Até mesmo defenderão que tudo o que está sendo feito é apenas perseguição política e que não podemos levar em consideração porque é golpismo de emissoras de televisão e de grandes conglomerados empresariais.
Eu sempre me pus como oposição ao governo, mas também nunca apoiei o PSDB. Não concordo com os ditames econômicos do governo, julgo mais como paliativo do que efetiva democratização de direitos, uma vez que não estamos vendo o prosseguimento dos projetos sociais. Mesmo assim, inclusive já publiquei um texto em jornal da cidade, defendo as cotas e seus benefícios de inserção.
É inegável que os anos em que o PT esteve à frente mais pessoas saíram da miséria, o país veio em ascendência.
Mas como parece que desde sempre o nosso país é marcado pelo dualismo: liberais e conservadores; esquerda e direita; republicanos e monarquistas; PT e PSDB e assim por diante, nos jogamos novamente nessa dicotomia tola que favorece ao ódio e em nada facilita as opções de diálogo. Parece que temos medo de parecer indeciso e não percebemos que o centro também é uma posição. Esse medo é aumentado porque nos portamos como se a pessoa que pensa diferente sofresse de uma doença contagiosa.
Esse discurso do respeito, inclusive, vem sendo bastante divulgado de ambos os lados, mas temos visto isso? Temos uma oposição paternalista, que está se movimentando para retomar as rédeas do país, temos uma esquerda paternalista também que julga absurdas as ideias contrárias, apela para a falta de estudo ou aula de história, como é mais comum nas redes sociais, como justificativa de quem pensa diferente, veem-se como os iluminados.
O impedimento de um presidente é previsto pela constituição, nós já derrubamos um, Collor, inclusive o PT esteve junto no movimento a favor da queda e lutou para que o FHC sofresse o mesmo processo. Sim, é um ato de muita responsabilidade, mas não é golpe. Não é uma questão de perder nas urnas, mas de investigação e, se for comprovado o crime das Pedaladas, justiça. Eu sou contra que os telefonemas sejam colocados no mesmo processo das pedaladas. É preciso que o povo se conscientize do que está em julgamento e, infelizmente, não temos isso nem da imprensa, nem da oposição e nem do governo.
64 foi marcante, mas não estamos lá mais. Em 64 não havia crimes, havia questões ideológicas e o mundo estava imerso na Guerra Fria, a tirada de Jango do poder foi um golpe sim!, mas o impedimento, se for comprovado o crime, não é golpe não. A nossa democracia está amadurecendo, mas isto não deve ser desculpa para permanecermos com um governo que, se for provado, é culpado por crimes de responsabilidade administrativa e que, por outro lado, não tem em nada um discurso apaziguador.
Defendiam que o ministério para o Lula não tinha ligação com o foro privilegiado, afinal iria ser investigado pela instância máxima da Justiça do país. Agora vemos constantemente ser negada a nomeação do ex-presidente.

Vamos ter coerências em nossos discursos. Se o Moro se excedeu que seja investigado, se o PSDB está sujo, como tem sido mostrado que está, temos que lutar pela sua investigação também. O que não podemos é defender um dizendo que o outro também está errado. Que haja reforma política no País, que seja já, que seja agora! 

Texto Publicado no Jornal Diário dos Campos, 17/03

quinta-feira, 10 de março de 2016

O Paternalismo Brasileiro


 A questão do paternalismo no Brasil se estende durante séculos, desde a sua formação europeia. Se olharmos para as primeiras descrições do Brasil vemos interesses voltados às riquezas que a terra poderia dar, mas também vemos muitas delas, principalmente por parte dos religiosos, com vistas a salvar os índios da sua ignorância e de seu modo de vida bestial.
A concepção de que é necessário alguém superior para ajudar quem está mais abaixo persiste com os senhores de engenhos e o sistema implantado no Brasil com os agregados. Mesmo sendo um país escravocrata, ainda via-se na mão do senhor um socorro, ou seja, mesmo ele sendo dono e reificando outra pessoa, esta ainda via qualquer “bondade” do senhor como um favor.
Os exemplos se seguem com a Monarquia, com a República, com a Era Vargas e sua política populista, com o autoritarismo do Governo Civil-Militar implantado em 64, e assim por diante. Mas nesse pequeno texto, ainda quero lembrar posições paternalista por parte daquela ala que deveria, como parte do seu discurso defende, lutar contra esse tipo de ação.
A esquerda marxista-leninista já dava mostras de seu paternalismo, ou projeto de poder totalitário, quando dispensa a democracia por defender que os líderes bolcheviques sabiam aquilo que era melhor para o povo.  Vemos esse tipo de ação também nos CPCs da UNE (Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes) instalados no Brasil no meado do século passado. Essa organização que considerava a Cultura Popular como esdrúxula, alienada e defendia uma Cultura Popular Revolucionária, levando “politização” e “cultura de qualidade” ao proletariado.
A construção, tanto à direita como à esquerda, da nossa sociedade e da nossa identidade demonstram como fomos condicionados a uma situação de sempre esperar de cima as providências que resolverão as nossas vidas. Não estou aqui criticando programas assistenciais simplesmente, mesmo porque acho que os mesmo sejam necessários para reparar séculos de discriminação e marginalização, mas a postura que os brasileiros têm de ver no governo uma fonte de favores, nunca obrigações por terem sido eleitos.
Esse tipo de pensamento e postura ainda se vê mesmo nos meios universitários. Isto fica claro quando interpretamos o Mito da Caverna como se nós, acadêmicos, conseguíssemos retirar das trevas da ignorância as demais pessoas e como se nós fossemos intocáveis e donos da verdade, desconsiderando o pensamento daqueles que, muita das vezes não tem formação universitária, e pensam de maneira diversificada. Isso fica límpido quando simplesmente achamos absurdo e julgamos inaceitável que pessoas façam manifestações contrárias às ideias predominantes na academia e as criticamos como se as mesmas fossem ignorantes e incapazes de ter consciência histórica, apenas pelas mesmas não pensarem da mesma maneira que a elite acadêmica pensa, sentimos isso dentro da própria academia, muitas vezes, na relação professor-aluno.
O Brasil só conseguirá estabelecer uma democracia saudável quando os brasileiros reconhecerem a necessidade de dialogar e respeitar as opiniões contrárias, quando a população parar de reclamar do governo quando dá enchente e mudar sua postura com o descarte do lixo. O Brasil só alcançará a maior idade e a maturidade democrática quando deixarmos de ser pedantes por um lado, preguiçosos por outro e, acima de tudo, omissos e assumirmos os bônus e ônus de sermos sujeitos da história.



Publicado em: 10/03/2016 no Jornal Diário dos Campos