Essa semana as redes sociais
falaram muito da chegada de Mart McFly aos nossos dias. No filme ele chega a um
futuro que, obviamente como vemos, não existe. As brincadeiras foram muitas
durante toda a semana a cerca disso. Mas será que estamos no futuro? Não temos
carros voadores, muito menos skates, nossas estradas estão bem no chão, nada
parece tão futurístico no cotidiano das nossas vidas.
Ainda olhando as redes
sociais outro evento, bem menos popular, diga-se de passagem, tem aparecido
também: Escola Sem Partido. A ideia básica é deter a doutrinação, inclusive o
lema do movimento é “Educação sem Doutrinação”, como fazer isso? Punindo!
Ditaduras do mundo inteiro
se utilizaram muito disso, tanto as de direita quanto as de esquerda, mas
parece que isso ficou no passado, ou será que estamos vivendo o passado?
Para quem visitar o site e
olhar a bibliografia sugerida pelo movimento verá que A Escola Sem Partido, tem
partido sim. Os guias politicamente incorretos estão lá nessa lista e, como é
claro, não estão nem perto da imparcialidade. Tentei uma vez ler o Guia
Politicamente Incorreto da História do Mundo, mas se tornou uma missão quase
impossível tamanho apelo anticomunista que ali é feito. Isso não é ser imparcial.
Durante o século XIX a
História para se firmar como ciência tentou ter métodos que gerassem a
objetividade, mas já todos temos noção que é impossível não haver subjetividade
em tudo aquilo que fazemos, somos humanos, faz parte de nós.
A Igreja durante muito tempo
queimou livros e os proibiu porque as pessoas se desviariam se os lessem. Hoje
olhamos para trás e vemos que a maioria daqueles que estudaram e se colocaram
contra a Igreja não deixaram de ser cristãos. Morreram como grandes nomes das
ciências e artes e cristãos.
Estou em sala de aula já há
alguns anos e dentro da lógica desse projeto é só eu ir com uma camisa do Chico
Buarque, por exemplo, que no dia seguinte todos já sabem as músicas e o
defendem como melhor artista nacional de todos os tempos; todos eles são
Flamengo porque eu sou, enfim, todos eles pensam muito semelhante a mim, afinal
tenho o Super Poder de domar a mente deles e transformá-los em zumbis a meu
comando.
Não defendo que enquanto
profissionais devamos fazer proselitismo, inclusive há uma equipe pedagógica
responsável por evitar abusos em sala de aula, mas é impossível que eu deixe
minhas paixões, sejam elas de qual ordem forem, do lado de fora da sala de aula
porque nada, absolutamente nada, é imparcial. Pedi que um capitalista ensine
comunismo com vontade e sendo imparcial é tão absurdo quanto o contrário.
Claro que professores tem
influências em seus alunos, mas não os domesticam. Tive alunos que são a favor
da volta do Regime Ditatorial nas bases daquele que vivemos entre 1964-1985,
mesmo eu sendo contrário, alunos que são a favor da total militarização da
polícia, mesmo eu sendo contra. É uma farsa essa ideia de não haver partido, é
doutrinação à direita.
Devemos ter responsabilidade
ao exercer nossa função em sala de aula, devemos sim gerar debates e ensinar
nossos alunos a pensarem e a criticarem, sendo cidadãos de fato e praticando o
respeito à variedade de pensamento, como prevê a Constituição e a LDB reafirma.
Acusar um professor de está
doutrinando é um ato tão subjetivo quanto tomar partido. Voltar a amordaçar,
excluir o debate dentro da escola é gerar pessoas “apolíticas”, e quando se é
“apolítico” defende-se o status quo. Se
nossos jovens não tiverem a escola para debater aonde surgirão as ideias?
Precisamos já de uma reforma na nossa política, todos veem isso, mas para a
Escola Sem Partido deve está confortável do jeito que está porque eximir nossos
alunos da possibilidade de criticar é criar servos e não cidadãos.
Se Mart McFly chegou e está
lendo esse artigo agora lamento informá-lo que aqui não é o futuro, é o
passado. Bem-Vindo ao passado!
Texto publicado 29/10/2015 no Jornal da Manhã

Excelente texto, parabéns!
ResponderExcluirMuito Obrigado!
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