domingo, 19 de fevereiro de 2017

Cada um cuidando de si e arrebentando o Brasil por todos

Na semana passada falamos um pouco sobre a situação da falta de segurança que se espalhou pelo país e o reflexo desta no jogo político para 2018. Essa semana saiu a pesquisa que colocou Lula e Bolsonaro num hipotético 2º turno. Um colunista do jornal O Globo alertou que os partidos têm que ficar atentos ao fenômeno Bolsonaro que está aí e parece que é pra ficar.

Confesso que a pesquisa não me inspirou confiança e que não sei se as coisas caminham para um fortalecimento tão grande de Lula e de Bolsonaro a este ponto. Daqui até as eleições muitas coisas estão ainda para acontecer, mas o cenário começa a ser montado para a corrida eleitoral.
Essa semana, também, Ciro Gomes foi apresentado como quem sairá candidato pelo PDT no ano que vem e ele já fez suas ameaças, como de costume. Ciro, embora tenha muito mais esclarecimento e articulação de ideias, sofre do mesmo problema da truculência que Bolsonaro, mesmo um sendo à esquerda e outro à direita. Creio que nenhum dos dois chegará à presidência.
Pelo lado tucano a pesquisa não trouxe cenário com João Dória, o que pra mim é um erro. Sabemos que ele está no grupo de Alckmin e que deveria ser seu principal cabo eleitoral do mesmo, mas o caminhar da coisa está se apresentando para que ocorra o inverso. Alckmin desapareceu das mídias e as campanhas de Lula e Bolsonaro estão a todo vapor, estão em tudo quanto é lugar o tempo todo. Dória, pelos tucanos, seria o candidato com maior carisma e populismo, que, a meu ver, poderia arrebanhar mais votos.
Outro dos pré-candidatos tucanos seria José Serra. Naturalmente ele já não conta com muita popularidade, ainda mais fazendo parte do atual governo que está com problemas gigantescos a se resolverem. Sobre o atual governo, o líder dele no Congresso, Romero Jucá, apresentou essa semana uma proposta completamente indecente de blindar aqueles que estão na linha sucessória da presidência, ou seja, os presidentes da Câmara e do Senado só poderiam ser investigados por crimes cometidos durante o mandato.
Chega a ser absurdo e me surpreender, talvez pela minha ingenuidade, essa proposta de Jucá. Enquanto a população está ansiosa pelo fim do foro privilegiado, o senador, líder do governo, apresenta uma proposta descabida desta. O Congresso segue legislando em causa própria, olhando apenas para o seu umbigo.
Le Pen (líder do partido de extrema direita na França) foi descoberta nomeando funcionários fantasma e terá parte do seu salário retido para devolver aos cofres públicos a quantia desviada. Enquanto que aqui no Brasil políticos continuam a criar mecanismos absurdos para se autodefender e quando são pegos continuam com o dinheiro roubado. Isso fica claro com o caso do Rio de Janeiro, era só Cabral e Eike devolverem o dinheiro desviado que a CEDAE não precisaria ser vendida. Mas... Cada um cuidando de si e arrebentando o Brasil por todos. 

Publicado na coluna Resenha de Domingo no site Cultura Plural
19/02/2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O Brasil hoje e a visão para 2018

A situação no Espírito Santo segue delicada e o medo toma conta das ruas, pelo menos é isso que a mídia mostra. No Rio de Janeiro durante as primeiras horas de sexta também houve apreensão sobre a possível paralisação da PM fluminense.
Enquanto acompanhava a minha mãe na espera por atendimento médico numa clínica de Ponta Grossa, o jornal Bom Dia Brasil insistentemente passava que os PMs do Rio estavam trabalhando normalmente. É interessante como que a imagem do medo se propaga com uma velocidade incrível.
Vivemos atualmente numa sociedade que não inspira segurança, moramos em Ponta Grossa e percebemos que a violência e a falta de respeito à propriedade, não por uma questão ideológica, e ao sujeito aumentam a cada dia. Qual é a lógica em que vivemos?
Frente a toda essa insegurança parece que as falas do Bolsonaro ganham ainda mais efeito, a truculência vai ganhando silhueta de segurança e a população parece se encaminhar a aceitar governos autoritários em busca de que a vida cotidiana possa ter a paz que hoje se apresenta como nostálgica.
É interessante pensar no futuro político do Brasil. Será que realmente Bolsonaro se fortalece para 2018? Ele perdeu as eleições para a presidência da Câmara Federal de maneira vexatória. Mas esse evento é passível de reflexões importantes sobre a figura do deputado carioca.
Em primeiro lugar creio que devemos notar que esta perda apenas fortalece o seu discurso amplamente moralista. Afinal, ele foi eleito pelo povo e não tem os votos dos políticos corruptos, mantendo assim a imagem que parece está sendo construída de o único, ou um dos únicos, políticos livres do mal da corrupção.
Outro fator interessante é ele ter tomado a atitude de se candidatar sem dialogar com o PSC, seu atual partido, deste modo não obtendo os votos nem mesmo dos próprios correligionários. É outro traço que vem se confirmando na imagem de Bolsonaro, suas atitudes personalistas.
Alguns afirmam que ele seria o Trump brasileiro, creio que não. Embora ambos ganhem espaço levantando discussões que estão no cotidiano dos cidadãos de seus respectivos países, Trump tem mais bagagem na questão administrativa, além de ter a base de um partido forte que o apoia, não completamente, mas o apoia e o possibilita governar.
Já Bolsonaro não tem nem essa experiência, nem mesmo partido forte na Câmara e Senado. Creio, na verdade, que se ele chegar a ganhar será parecido com Jânio Quadros na década de 1960. Continuará com os apelos moralistas e com a falta de diálogo com a classe política, deste modo, seguindo uma linha coerente, mas impossibilitando que seu governo flua. Desta maneira, creio que só lhe restará três opções: renúncia; impedimento arquitetado pelo congresso; ou um governo através de decretos.
Mas esse problema não é apenas do candidato à direita, Ciro Gomes é outro político que tem dificuldades sabidas em seus relacionamentos por ser bastante intransigente com suas ideias, o que, consequentemente, lhe geraria dificuldades de governar o país. O que lhe diferencia de Bolsonaro é o apelo populista e também que as ideias da direita estão em alta enquanto a esquerda segue decaindo na opinião pública geral.
Dória, prefeito de São Paulo, parece ser um dos principais nomes se despontando como candidato à presidência em 2018. Mesmo, a meu ver, o favoritismo pesando para Alckmin, creio que se Dória, continuar assim, conseguirá conjugar tanto as ideias de direita que tem crescido, quanto o apelo moralista anticorrupção por não ser político de profissão, e também a articulação política por fazer parte de um partido maior, fora a experiência da administração pública, na prefeitura da maior cidade do país, e seu sucesso na iniciativa privada que pode lhe pesar devido à, tão falada, crise econômica.
O Brasil segue em construção e as crises são as melhores oportunidades de reflexão e mudança. Espero que consigamos aproveitar esse período difícil que estamos passando para perceber que os maiores problemas nacionais não estão nos indivíduos, somente, mas também na organização da cultura política do Brasil, assim bem como na estrutura do Estado. 
Publicado na Coluna Resenha de Domingo do site Cultura Plural, 14/02/2017. 
http://www.culturaplural.com.br/o-brasil-hoje-e-a-visao-para-2018-1#.WKWCntylzIU