quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Sobre as Cotas e a Corrupção

O último texto que escrevi e publiquei aqui foi na segunda semana de Janeiro e falava sobre a esperança de um ano melhor, de mais fé nas instituições políticas, de mais força para lutar e fazer um Brasil melhor. Meus textos sempre são de oposição ao governo federal e continuo o sendo, mas este quero que a tônica seja um pouco diferente, mesmo sem deixar a crítica de lado.
Um dos projetos aplicados durante o governo do PT foram as cotas. Dentro de uma relação amor&ódio na sociedade, é um tema que até hoje gera polêmica. As pessoas que são contra defendem a meritocracia, ideia típica do liberalismo econômico expressa, por exemplo, na frase “O Sol Nasce para todos”, deixando transparecer que todos têm as mesmas oportunidades e “Querer é Poder”. Não resta dúvida de que devemos correr atrás dos nossos sonhos e nos esforçarmos, entretanto será que tudo se resume a isso?
As cotas são justificadas pela chamada Dívida Histórica, mas seus opositores dizem que não devem nada. Realmente não somos nós que devemos (diretamente), mas a sociedade em que somos sujeitos deve, logo nos tornamos devedores também. A abolição da escravatura veio como uma covardia contra a população liberta. Foi feita de cima para baixo e pensando apenas a classe dominante. Foram trazidos europeus para trabalharem aqui, renegando os negros à marginalização.
Sim, a sociedade brasileira deve a inclusão no mercado de trabalho e na própria sociedade desses que sempre foram excluídos e, sim, as cotas são necessárias. Entretanto é importante destacar que elas não são a solução, deve-se investir em educação de base de qualidade, as escolas públicas devem preparar de fato os alunos para a vida, para a concorrência do mundo adulto também.
Alguns projetos existem para preparar esses jovens para entrar no mercado de trabalho, vemos isso com os mais variados projetos que o governo mantém como o tão falado PRONATEC, e outros que permitem o ingresso na Universidade, como o ProUni e o Fies. Há novos caminhos para que os antes excluídos possam ter acesso ao tão elitizado ensino superior.
Mas é preciso mais! É preciso que se dê base social e econômica para que esses jovens possam ter condições de se manterem e que possam acompanhar o ritmo para que as desistências não sejam frequentes, melhor, que não existam.
Presenciei nesse início do ano muitas pessoas revoltadas com as cotas e outras, o que é muito pior, que não tem “direito”, pois não são afrodescendentes, se utilizando desse meio criado para integrar os que a sociedade um dia marginalizou para proveito próprio. Isso muito me enoja, porque são anos de luta por mais igualdade e a nossa sociedade cospe na cara da justiça e na luta por uma sociedade mais justa e depois reclama da corrupção lá em cima.
Essa foi a minha primeira decepção com o Brasil esse ano e foi com a sociedade e não com o governo. Para um país melhor é preciso que sejamos melhores cidadãos, que cumpramos com a moral e a ética. Precisamos extinguir a corrupção da sociedade para que alcancemos a justiça e, consequentemente, um governo melhor e mais limpo.

Publicado no Jornal da Manhã - 26/01/2016