Não sou estudioso das
linguagens, mas me recordo bem de quando ainda estava no ensino fundamental e
surgiu uma discussão, que foi amplamente divulgada nos meios midiáticos, na
qual não se deveria mais dizer que os alunos estavam escrevendo ou falando
errado, que, no máximo era inadequado e que deveria se respeitar ao máximo as
variantes linguísticas das quais o nosso país está repleto. Não venho aqui
debater sobre a língua portuguesa em si e seus desdobramentos regionais, mas
sobre como ela tem sido usada por políticos e marqueteiros em prol de um
projeto de poder.
Li um texto essa semana que
falava um pouco sobre como os conceitos de determinadas palavras estão sendo
modificados pela facção política que detém o poder. O texto trazia uma crítica
simples ao fato de minorias não levarem mais em conta os padrões numéricos,
como considerar as mulheres como tais, pertencer a uma raça não é mais
relacionado à cor da pele ou a ascendência genealógica, tudo parece se resumir
as posições partidárias, nem mesmo as suas convicções ideológicas.
Não me surpreende a
dificuldade de admitir, de dialogar, a falta de sensibilidade e até mesmo o
pedantismo dos partidos que beberam na fonte do tão idolatrado Marx, que assim
o era, mas confesso que a maneira com que deturpam até mesmo as teorias marxianas
isso sim me surpreende. Marx pregava a Revolução Comunista para libertar a
classe trabalhadora, maioria, do julgo e exploração dos capitalistas, minoria,
a própria teoria está baseada nesse dualismo e na injustiça de muitos nada
terem e poucos terem tudo, simplificando. Sei que a sociedade atual tem uma
formatação bem diferente, mas vejo muitos ditos marxistas tentando colocar a
formatação atual às suas doutrinas, não percebendo o anacronismo eminente.
Sinto que seja um pouco
simplista demais observar a dinâmica atual sob a égide dualista que banhou a
Guerra Fria em que antagoniza classes sociais e modelos de governo, e suas
respectivas propostas, entre direita e esquerda, como está nos dias atuais,
entre os “coxinhas” e os “petralhas”. Não creio que esse maniqueísmo poderá dar
a solução para os problemas sociais, políticos e econômicos que o Estado
brasileiro enfrenta.
Nossos problemas sociais não
estão baseados simplesmente nas lutas de classes, a problemática vai além e
não, o problema não é só o capitalismo que destrói a vida das pessoas e as
levam até a miséria. É necessário que haja um debate adulto e baste desse facciosismo
que em nada auxilia os rumos do Brasil. É preciso que tanto governo como
oposição reconsiderem e admitam seus erros e saibam dialogar, até porque sem
diálogo não há democracia. É necessário que se deixe essa política de marketing
simplesmente, de sensacionalismo e discuta-se com seriedade os problemas nacionais
e abandone-se essa estratégia de se manter no poder, ou conquista-lo, às custas
de ideologização de conceitos e massificação de informações infundadas e rasas
que iludem a sociedade de que estão informadas e prontas para opinarem, quando
na verdade estão sendo simplesmente manipuladas.
Que se parem com essa
vitimização, que chega a ser cultural aqui no Brasil, e se discuta com
seriedade a sociedade em que vivemos, do contrário, continuaremos nessa inércia
de modificações efetivas que transformem de fato o estado do Brasil e viveremos
na eterna nostalgia por algo que não aconteceu, como no caso dos pernambucanos,
“Ah! se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses...”.
Texto Publicado no jornal Diário dos Campos dia 10/04