quarta-feira, 6 de maio de 2015

E SE FOSSEM OS HOLANDESES?


 Não sou estudioso das linguagens, mas me recordo bem de quando ainda estava no ensino fundamental e surgiu uma discussão, que foi amplamente divulgada nos meios midiáticos, na qual não se deveria mais dizer que os alunos estavam escrevendo ou falando errado, que, no máximo era inadequado e que deveria se respeitar ao máximo as variantes linguísticas das quais o nosso país está repleto. Não venho aqui debater sobre a língua portuguesa em si e seus desdobramentos regionais, mas sobre como ela tem sido usada por políticos e marqueteiros em prol de um projeto de poder.
Li um texto essa semana que falava um pouco sobre como os conceitos de determinadas palavras estão sendo modificados pela facção política que detém o poder. O texto trazia uma crítica simples ao fato de minorias não levarem mais em conta os padrões numéricos, como considerar as mulheres como tais, pertencer a uma raça não é mais relacionado à cor da pele ou a ascendência genealógica, tudo parece se resumir as posições partidárias, nem mesmo as suas convicções ideológicas.
Não me surpreende a dificuldade de admitir, de dialogar, a falta de sensibilidade e até mesmo o pedantismo dos partidos que beberam na fonte do tão idolatrado Marx, que assim o era, mas confesso que a maneira com que deturpam até mesmo as teorias marxianas isso sim me surpreende. Marx pregava a Revolução Comunista para libertar a classe trabalhadora, maioria, do julgo e exploração dos capitalistas, minoria, a própria teoria está baseada nesse dualismo e na injustiça de muitos nada terem e poucos terem tudo, simplificando. Sei que a sociedade atual tem uma formatação bem diferente, mas vejo muitos ditos marxistas tentando colocar a formatação atual às suas doutrinas, não percebendo o anacronismo eminente.
Sinto que seja um pouco simplista demais observar a dinâmica atual sob a égide dualista que banhou a Guerra Fria em que antagoniza classes sociais e modelos de governo, e suas respectivas propostas, entre direita e esquerda, como está nos dias atuais, entre os “coxinhas” e os “petralhas”. Não creio que esse maniqueísmo poderá dar a solução para os problemas sociais, políticos e econômicos que o Estado brasileiro enfrenta.
Nossos problemas sociais não estão baseados simplesmente nas lutas de classes, a problemática vai além e não, o problema não é só o capitalismo que destrói a vida das pessoas e as levam até a miséria. É necessário que haja um debate adulto e baste desse facciosismo que em nada auxilia os rumos do Brasil. É preciso que tanto governo como oposição reconsiderem e admitam seus erros e saibam dialogar, até porque sem diálogo não há democracia. É necessário que se deixe essa política de marketing simplesmente, de sensacionalismo e discuta-se com seriedade os problemas nacionais e abandone-se essa estratégia de se manter no poder, ou conquista-lo, às custas de ideologização de conceitos e massificação de informações infundadas e rasas que iludem a sociedade de que estão informadas e prontas para opinarem, quando na verdade estão sendo simplesmente manipuladas.
Que se parem com essa vitimização, que chega a ser cultural aqui no Brasil, e se discuta com seriedade a sociedade em que vivemos, do contrário, continuaremos nessa inércia de modificações efetivas que transformem de fato o estado do Brasil e viveremos na eterna nostalgia por algo que não aconteceu, como no caso dos pernambucanos, “Ah! se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses...”.

Texto Publicado no jornal Diário dos Campos dia 10/04                                                                                                                     

Entre pedras, o que fazer José?!


Esta semana me detive numa livraria e foleei alguns livros de poesia. Confesso que a sensação que senti foi decepção. Não sei se minha educação me nega apreciar essa arte ou se realmente a qualidade da escrita tem decaído. Mesmo levando em consideração o que foi dito antes, ainda sim me considero um admirador da dinâmica das palavras e de como elas podem penetrar e expressar ideias e sentimentos dos mais diversos.
Uma das poesias mais famosas no Brasil é: No meio do caminho. Drummond não escreveu as palavras singelas para o ano de 2015, mas aí está a simplicidade e a beleza da arte poética! Não sei no que ele estava pensando, nem o que era a pedra no caminho, mas sei que lendo os jornais e buscando manter-me atualizado da situação nacional tenho visto muitas pedras.
Parando para pensar em um caminho para a nação consigo enxergar várias pedras no nosso caminho. Talvez a maior delas seria a dinâmica política. O governo federal não consegue arrumar sua própria casa, o PT não tem homogeneidade, dirão que é justamente essa falta que torna possível a democracia, mas o problema está em não chegar a sínteses. A presidente distribui ministérios e cargos, tirando pastas do próprio partido para dar a aliados, mas assim não consegue assegurar fidelidade de facções aliançadas e ainda insatisfaz a sua própria.
Ainda dentro da dinâmica política, há a pedra do PMDB. Maior partido do Brasil, é o responsável por tornar o país governável, pois sem seu apoio fica praticamente impossível se concretizar ações, por mais que haja vontade política do executivo e do próprio legislativo. O PMDB ainda não conseguiu se livrar da herança do período da ditadura, aonde congregava várias correntes de oposição ao governo, não tendo, assim, cara. Atualmente não se cabe mais esse tipo de postura, sendo o projeto do partido em questão o poder pelo poder já que em regime democrático não tem como se manter a oposição por oposição sem debater verdadeiras mudanças em todos os âmbitos da sociedade brasileira.
O PMDB está em voga, dessa feita também por defender o Voto Distrital. Mesmo sendo uma tentativa de mudança acarreta muitos olhares desconfiados de especialistas, pois estes últimos ressalvam a possibilidade de dificuldade de articulações políticas e de governabilidade, pois um parlamento que seja oposição ao executivo fará com que o país estagne praticamente, mas também fará haver maior fiscalização de ambos os lados, pois a busca por erros do lado antagônico está intrínsecos ao jogo político. Mostrando a dramaticidade que cerca os debates sobre essa reforma.
Exemplo de como funciona o jogo político é o nosso estado: opinião pública, de maneira geral, foi contra a PL 252/2015, executivo ordenou que fosse votado e, como tem a maioria na Câmara, o projeto foi votado e aprovado. Não levantando aqui os debates que são necessários, mas transbordam os limites do presente, sobre os porquês da defesa e do ataque contra o projeto supracitado.

Voltando a Drummond, poderei falar no futuro que minhas retinas fatigadas não esqueceram das pedras que viu e, ainda utilizando o poeta, fico com a seguinte pergunta a guiar-me na busca de resposta: E agora, José?!

Texto publicado no Jornal Diário dos Campos no dia 05/05